Você não acompanhou, mas tá rolando uma treta bizarra no twitter envolvendo a Xuxa. Aquela mesmo, que namorou o Pelé, a rainha dos baixinhos, a mãe da Sasha. Aquela.


O seguinte é esse: como diversas outras celebridades (Luciano Huck, Ivete Sangalo e tantos mais), Xuxa resolveu entrar no twitter. Claro que BILHARES DE BILHÕES de pessoas passaram a seguir a Rainha dos Baixinhos lá na parada. Ela é, ainda, uma referência forte da infância de muitos de nós (da minha, inclusive).

O problema foi logo na chegada: Xuxa só twittava em caps lock. Como qualquer pessoa mais habituada a utilizar redes sociais da internet com um mínimo de netiqueta sabe, escrever com caps EQUIVALE A GRITAR no ambiente virtual. Alertada por alguns seguidores, Xuxa alegou que "esse era seu jeitinho" de escrever e quem a conhecia entendia isso.


Bastou: milhares de twitts esculhambando a atitude, a falta de educação digital, etc, etc... Mas a coisa piora... Xuxa avisou que Sasha iria twittar do set do filme que a menina está encenando, e a garota, que, se não me engano, tem 11 anos, escreveu algo como "tô indo gravar minha próxima sena com um bode. beijinhos". Depois da queda, o coice - xuxa twitta: "sasha gravou com um bode e está indo gravar com uma cobra".

Você, leitor maldoso, se ligou no tamanho do "lá ele".

De novo: bilhões de twitts crticando o erro gramatical da garota. Xuxa ainda tentou justificar, falando algo como "Sasha errou porque foi alfabetizada em inglês", e aí, camarada, esse monte de gente desocupada que frequenta o twitter e se sente dona do ambiente virtual fez tantas, tantas, tantas piadinhas grosseiras e desrespeitosas sobre o assunto que Xuxa se retirou do twitter.

Ok, essa é a história.
Mas por que isso tá aqui no Diário da Criação?
O que é que isso tem a ver com publicidade?

Várias lições valiosas pra gente, que mexe com publicidade:
a) Com o advento das redes sociais, não há mais filtro de assessores, rp´s, marketeiros, assessores de imprensa e todo este batalhão de profissionais entre o artista e o público. Isso é fantástico, e pode ajudar a retomar carreiras (muitos, como Leo Jaime, Ritchie e outros artistas que andavam um tanto afastados do grande público, voltam a estar na boca do povo, pois se relacionam bem com a ferramenta e com os seguidores).
Mas, ao mesmo tempo, grandes celebridades precisam entender que esta relação é COMPLETAMENTE diferente da relação que havia antes. Em grande medida, um ataque de trolls (esse povinho que fica fazendo piadinha e esculhambando tudo e todos via web) a uma mega-celebridade como Xuxa seria impensável há poucos anos.
O que euy percebo (e posso estar enganado) é que há um esfacelamento da aura de intocável das celebridades. O grande público vem percebendo que artistas são pessoas comuns, normais. Como essas novas conformações das relações sociais entre artistas e públicos vão influenciar os rumos da publicidade tradicional? Vai valer a pena desembolsar MILHÕES de reais para comprar a chancela de um produto por uma celebridade como, sei lá, Gisele Bundchen (hipotético, viu, gente), que vende creme facial na tv e depois twitta "só saio de casa de cara limpa, odeio creminho"?

b) Celebridade tem de entender que, na internet, cercado pela névoa difusa do anonimato, muita gente age sem a menor educação. Não sabe brincar? Não desce pro play. Twitter, facebook e tudo mais é um a um, e muita gente frustrada com sua própria vida vai aproveitar uma pisada de bola de uma celebridade qualquer para descarregar toda a raiva e falta de educação que Deus lhe deu.. São novas regras, tudo novo. De novo. Com isso, não estou defendendo, em absoluto, nenhum dos ataques que Xuxa sofreu: todo mundo digita uma coisa ou outra de maneira errada mesmo. Mas a celebridade é mais observada que todos nós.

c) Os trolls pegaram pesado, foram grosseiros e estúpidos. Mas nós, publicitários hypes, antenados, digitais, modernos e descolados, muitas vezes, também, não pisamos na bola quando sugerimos ações altamente fechadas em nosso mundinho digital e que não dizem NADA à grande massa?
Para meio mundo, internet é aquele "e" azulzinho no desktop, onde eu clico e entro no uol. Há algo de errado nisso? De forma alguma. Eu, enquanto publicitário, quero falar com você. Se você usa internet explorer 6 (que atrasa o desenvolvimento da web como um todo por não permitir uma série de inovações na construção de sites) o site que eu faço tem de funcionar pra você. Se você quer fazer uma peça que tem uma referência, sei lá, ao The Big Bang Theory, desculpa falar assim na lata, amigão, mas saiba que você se encastelou. Na vida real tem gente vendo é hare baba, zorra total e adotando as modas da novela e tudo mais.
Com isso, não estou dizendo que é pra você jogar no lixo todas as temporadas de Dexter que você comprou na promoção do submarino. Publicitário vive de referência - é parte do seu trabalho ir buscá-las. Mas se isolar do mundo real e do modo como as pessoas vivem é perder a oportunidade de aprender muito.
O bom publicitário vê tudo. De Caminho das Índias a Californication. E, quando um cliente pede pra fazer um banner no uol, não torce o bico e tenta educar o cara pra outras formas mais relevantes de comunicação digital.

Quando perdemos a paciência porque alguém nem imagina o que seja True Blood, não fica feio pro cliente, e sim pra nós;
Quando nós fazemos biquinho pra vida real, os trolls somos nós.

7 Responses to "A Xuxa, a Sasha e o twitter: "senas" patéticas e a trollagem"

  1. lilaemarcelo Says:

    Demorou para postar aqui, mas o fez divinamnete. Muito bom o que escreveu. É uma verdade crua: ou a publicidade desce do pedestal de hype, cult, ou o que mais for, e vai atrás de todas as referências, ou está fadada a fazer campanha só para ganhar prêmio. O que não mantem uma carteira de clientes que se preze, pois o cliente vai para agência que ganhou prêmio, mas só fica com ela se o que for oferecido mostrar resultado, se ele vender!

  2. Gabys Says:

    'muita gente frustrada com sua própria vida vai aproveitar uma pisada de bola de uma celebridade qualquer para descarregar toda a raiva e falta de educação que Deus lhe deu..'
    achei muito ridiculo tudo isso, é só uma criança de 11 anos e a Xuxa também é gente como a gente!

  3. Louise Cardeal Says:

    Velho, vc escreveu tudo o que eu sempre quis esrever em relação a isso, mas nunca consegui organizar as palavras (como vc fez). Eu concordo totalmente.

  4. Marcelo L. M. Trevisan Says:

    Equilibradamente fantástico seu post, você é meu exemplo de profissional, atento ao mercado e ao que seus clientes precisam, de que adianta buscar inspiração nas cadeiras da Bauhaus se um banquinho de madeira comprado no mercado é a melhor solução.
    Realmente é verdade 'essa globalização digital' vai levar as relações humanas a um patamar que nunca vimos.

  5. eric Says:

    show de post...

  6. Diu Mota Says:

    A importância de estarmos antenados pra esse novo mundo cibercultural é justamente para não nos perdermos com o tesouro na mão. Já pecamos pelo isolamento, agora pela mega exposição.
    "...E na hora que a televisão brasileira
    Destrói toda a gente com sua novela
    É que o Zé bota a boca no mundo
    Ele faz um discurso profundo
    Ele quer ver o bem da favela..."

    Precisa- se muito mais de " zé do caroço" do que de trolls.

  7. Isa Lorena Says:

    Não tinha lido esse texto ainda. Atrasada. Mas que bo que cheguei aqui, agora.
    O texto está fantastic.

    bjocas.

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